CERIMONIAL!

O PRÓPRIO NOME JÁ INDICA UM CAMINHO FORMATADO, COM MÉTODO, REGRAS E BAIXO POTENCIAL DE CONEXÃO.

Afinal, o que é ter cerimônias? Uma das definições possíveis associa a palavra etiqueta, protocolo, conjunto de regras e maneira de proceder que denota uma relação de formalidade entre as pessoas. É certo que os eventos precisam de organização, que as autoridades precisam ser tratadas com respeito e cordialidade mas, definitivamente, se eu pudesse acabaria de vez com os eventos formais, com os discursos sem vida, com as apresentações infindáveis de currículos e deixaria que o mérito do orador convidado a subir ao palco fosse conquistado alí, no momento, pelo poder da palavra e pela capacidade de tocar a alma dos ouvintes.

Cerimonial 2

 

Posso dizer que tenho grande experiência como cerimonial de eventos e afirmo que já vi de tudo. Pessoas dormindo, conversando, se levantando para servir o jantar enquanto as autoridades falam, ou simplesmente desistindo de tudo e indo embora. Imagine o que isso significa depois de tanto trabalho e dedicação para organizar um evento. O problema é que os organizadores, as empresas especializadas em planejar e executar os eventos pensam nos mínimos detalhes e muitas vezes pecam no momento mais importante: a apresentação. Inúmeras vezes acompanhei eventos importantes, com lista poderosa de autoridades ou artistas e, de repente, sobe ao palco uma mulher bem vestida e um homem elegante com seu vozeirão de radialista e a dupla começa a ler um texto de inúmeras páginas, dados, resultados e promessas. Apenas alguns segundos de leitura e citação de nomes de autoridades são suficientes para jogar por terra a atenção do público.

Por outro lado, a empatia de quem sobe ao palco, fala com as pessoas (ao invés de apenas ler), se sai bem dos imprevistos (que sempre acontecem), e até quebra com sabedoria o protocolo, tem um potencial enorme de atrair e segurar a atenção.

Há alguns anos apresento o Jantar e a Premiação Anual da Abcic – Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto. No ano passado quando chegamos no espaço elegante em São Paulo, onde seria a festa, os gestores das maiores empresas de construção em concreto do país não falavam em outro assunto, senão a crise e a corrupção no país. Embora fosse uma festa, o clima era de incertezas e de insegurança. Chegamos à conclusão que não faria sentido ficarmos restritos ao texto redigido previamente, embora houvesse citação da crise. Era preciso, de alguma forma, descontrair, sair do roteiro, usar a imaginação e, através de palavras, transformar aquele jantar num momento memorável. E assim fizemos! Já estou escalada para o próximo e espero encontrar um clima mais otimista em relação à nossa economia, afinal os executivos pensam e planejam a longo prazo.

Quem me dera se sempre houvesse essa abertura em um cerimonial de evento. Se as empresas entendessem que no lugar de palestras enfadonhas dos CEOS podem adotar outros formatos como os “Talk Shows” ao vivo, onde os executivos debatem temas específicos com consultores ou grandes nomes da academia. Onde eles sejam submetidos a questões que o mercado, os colaboradores e os pares gostariam de fazer. Fizemos isso em vários eventos empresariais em momentos difíceis como fusão ou venda de empresa, e foi um sucesso. O gestor teve a oportunidade de se colocar de forma mais humana e até mesmo expor suas vulnerabilidades, o que sempre gera empatia e conexão.

Minha reflexão é para que possamos buscar apresentações públicas (isso inclui o cerimonial de evento) mais humanas, sem o excesso de formalismo que cria uma barreira enorme entre quem fala e quem ouve. Precisamos sorrir mais, contar histórias, contar derrotas também para mostrar que somos falíveis, somos iguais. Ouse fazer diferente.