EM 28 ANOS TRABALHANDO NA ÁREA DE COMUNICAÇÃO, JAMAIS PRESENCIEI ALGO SEMELHANTE AO CENÁRIO ATUAL: DIVERSIDADE EXTREMA DE OPINIÕES, INFINITOS RECURSOS TECNOLÓGICOS E QUASE UM DESESPERO PARA SER PERCEBIDO NA MULTIDÃO DE OPÇÕES.

MIra Graçano

 

Nós brasileiros somos mestres em driblar crises, somos versáteis, temos perfil empreendedor. Mas muitos ainda não sabem o que fazer com a revolução provocada pelas mídias sociais. A facilidade para falar passou a ser definidora de posições na esfera social. É como se abrissem um oceano de oportunidades para todos, mas apenas os bons falantes nadam de braçada. Ganha espaço na guerra da visibilidade ou na disputa por uma vaga no mercado de trabalho, quem fala mais e melhor, quem consegue se expressar bem e engajar o maior número de pessoas com seu discurso, suas ideias e práticas, mesmo que sejam controversas e pouco efetivas. Por isso, afirmo com segurança que saber se comunicar passou a ser questão de sobrevivência onde todos podem tudo.

Basta uma olhada rápida nos top trends do youtube para confirmar esta tese. Pessoas até então desconhecidas ganham notoriedade e, de quebra, dinheiro, falando apenas e tão somente a linguagem que milhares de seguidores entendem e se identificam. É o que explica o sucesso do ex-auxiliar de garçom Whindersson Nunes, o primeiro brasileiro a conquistar mais de 10 milhões de fãs. Um único vídeo de Whindersson chegou a ultrapassar 33 milhões de visualizações. Nos surpreendemos por esquecer que comunicação sempre foi assim, falar o que outro entende, se identifica, se senti parte. Nós é que complicamos tudo.

Temos muito a aprender com este fenômeno. De nada adianta dizer que os discursos são vazios, por vezes de mal gosto e preconceituosos. O fato é que eles falam e são compreendidos, falam e geram engajamento. Os novos comunicadores influenciam, provocam a ação, fazem milhões de pessoas se tornarem seguidores fiéis. O que mais poderíamos desejar de uma comunicação de resultados? Precisamos reconhecer que em matéria de prática do falar bem em público, o êxito não é exclusividade dos grandes oradores. Foi-se o tempo da Ágora, da boa retórica dirigida ao povo. Em tempos de interconectividade , o povo fala a sua língua e não se espelha em modelos, cria seu próprio caminho.

Gosto de ouvir palestras. Costumo anotar o que os oradores dizem para ler novamente e avaliar. Curioso é constatar que todos os que adotam a fala simples e direta, por mais capacitados e cultos, tocam mais o coração. Comunicar de maneira funcional não é falar bem e bonito, nem abusar da erudição. É tocar a alma dos ouvintes. E qualquer pessoa pode tocar a alma do seu ouvinte, basta ser humano.

Com tanta liberdade de expressão, o que dizer da comunicação praticada dentro das empresas? As corporações investem em tecnologia, formação de pessoal, boas práticas e pecam no ponto básico da pirâmide – a comunicação. Basta ler os e-mails, participar das conversas do cafezinho ou do happy hour no final do expediente. A pauta recorrente se baseia em fofoca, descontentamento, e falta de transparência nas informações. De modo geral, as empresas não conversam com seus colaboradores. Não explicam corretamente seus projetos, não dão voz à equipe, torcem o nariz para argumentos contrários. Trabalhar numa grande empresa, muitas vezes, é desenvolver a arte de engolir sapos ou ser considerado o “estourado”, que pode perder sua vaga a qualquer momento. Há pouco espaço para o diálogo.

Comunicar é relacionar, é conversar, olhar nos olhos, ouvir o outro. É falar bem também com o corpo e com entusiasmo e, dessa forma, fazer com que o interlocutor pare para ouvir. Nada melhor que ver alguém apresentando um projeto com a convicção de que vai dar certo, com ânimo e assertividade suficientes para envolver toda a equipe. Este estilo de fala, que chamo de comunicação funcional está longe das performances mais frequentes nas empresas, onde um gestor reúne sua equipe, apresenta (anuncia) uma decisão e depois pergunta, quase por protocolo , se alguém tem alguma dúvida.

Podemos produzir currículos invejáveis em experiência e formação educacional, mas qualquer capacidade humana fica seriamente comprometida se a habilidade de falar bem não for lapidada. Dar ordens é fácil, considerar diferentes pontos de vista, nem sempre. Não somos dados à dissonância e esquecemos que é justamente na diversidade de opiniões que há evolução.

Comunicar bem e se expressar de forma clara e empática diante de grupos e, principalmente, desenvolver a escuta ativa são as habilidades que toda empresa deveria valorizar. Infelizmente as organizações ainda confundem “espírito de liderança” com atitudes como falar mais alto, ser influente, ser temido. Já convivi com colegas que “não levavam desaforo para casa”, tinham pavio curto e eram respeitados no grupo. Eles eram valorizados e ascendiam na carreira com rapidez. E depois? Qual era o espaço de autenticidade nessa equipe? Qual era o nível de satisfação e produtividade, de onde vinha o estímulo para as novas ideias e práticas? Certamente, salários e benefícios não foram suficientes para preencher esta lacuna.

A cultura da comunicação formal e fria (e-mail) transformou as empresas em espaços de representações. Muitas acreditam que estão dando voz aos colaboradores através de ideias como, por exemplo, as caixas de sugestões. Assim, evitam o olho no olho, não lidam com vulnerabilidades, com insatisfações. É mais fácil que dizer não. É mais fácil que comunicar uma vez que, comunicar é interagir. Dessa forma, os ambientes de trabalho escondem as angústias de profissionais que passam oito horas por dia sem dizer, simplesmente dizer. Não há a pretensão de que as empresas dêem conta das questões emocionais. Mas que comecem a falar verdadeiramente o que querem, o que pensam, e valorizem a escuta. A ciência já provou o quanto a indiferença é nociva às relações. E isso me faz lembrar dos erros de comunicação que marcam as demissões. O colaborador sai sem emprego e com um buraco na alma. Mas esta é outra e longa conversa. Por enquanto, se melhorarmos a comunicação com quem está ao nosso lado já terá sido um grande avanço.

Mira Graçano é consultora e ministra treinamentos de Apresentações em Público e Media Training.